S. Bernardo (1934)/Capítulo X
X
Aqui nos dias santos surgem viagens, doenças e outros pretextos para o trabalhador gazear. O domingo é perdido, o sabbado também se perde, por causa da feira, a semana tem apenas cinco dias, que a Igreja ainda reduz. O resultado é a paga encolher e essa cambada viver com a barriga tinindo.
Num feriado de mentira, não tendo podido encontrar gente para tirar baronezas do açude e brocar um pedaço de capoeira, distrahi-me ouvindo Padilha e Casimiro Lopes conversarem a respeito de onças.
Não se entendem. Padilha, homem da mata e franzino, fala muito e admira as acções violentas; Casimiro Lopes é coxo e tem um vocabulario mesquinho. Julga o mestre-escola uma criatura superior, porque usa livros, mas para manifestar esta opinião arregala os olhos e dá um pequeno assobio. Gagueja. No sertão passava horas calado, e quando estava satisfeito, aboiava. Quanto a palavras, meia duzia dellas. Ultimamente, ouvindo pessoas da cidade, tinha decorado alguns termos, que empregava fóra de proposito e deturpados. Naquelle dia, por mais que forcejasse, só conseguia dizer que as onças são bichos brabos e arteiros.
— Pintada. Dentão grande, pézão grande, cada unha! Medonha!
Padilha exigia que o outro repetisse a descripção e ia intercalando nella, por conta propria, caracteres novos. Casimiro Lopes divergia; mas, confiado na sciencia de Padilha, capitulava — e ao cabo de minutos a onça estava um animal como nunca se viu.
— Oh Casimiro, você vai levar um papel ao vigario.
E escrevi a padre Silvestre agradecendo o interesse que elle tinha tomado pela viagem difficil de Margarida. Chegara dias antes e estava alojada numa casinha cercada de bananeiras.
Entreguei a carta a Casimiro Lopes, tomei o chapeo e fui fazer a minha segunda visita á preta. Desci a ladeira. Ao atravessar o paredão do açude, amedrontei uma nuvem de marrecas e jaçanãs. Com as ultimas chuvas a represa augmentara muito, os bancos de baroneza estavam com vontade de entupir o sangradouro. A levada que ia ter ao descaroçador e á serraria transbordava. Fechada a serraria, fechado o descaroçador. Dia perdido. Encontrei Margarida sentada numa esteira, riscando os tijolos com carvões.
— Mãe Margarida, como vai a senhora?
Tentou endireitar o espinhaço emperrado e, antes de lançar-me os olhos brancos, reconheceu-me pela voz.
— Aqui gemendo e chorando, meu filho, cheia de peccados.
Peccados! Antigamente era uma santa. E agora, miudinha, encolhidinha, com pouco movimento e pouco pensamento, que peccados poderia ter? Como estava com a vista curta, falou sem levantar a cabeça, repetindo os conselhos que me dava quando eu era menino. Uma fraqueza apertou-me o coração, approximei-me, sentei-me na esteira, junto della.
— Mãe Margarida, procurei a senhora muito tempo. Nunca me esqueci. Foi uma felicidade encontral-a. E carecendo de alguma coisa, é dizer. Mande buscar o que for necessario, mãe Margarida, não se acanhe.
Olhou com espanto as cadeiras, a mesinha, a lampada electrica, os moveis do quarto proximo.
— Para que tanto luxo? Guarde os seus troços, que podem servir. Em cama não me deito. E quem dá o que tem a pedir vem.
— Não faz mal, mãe Margarida. Esteja socegada, durma socegada. Faltando lenha para o fogo, avise. Não deixe o fogo apagar-se, que as noites estão frias.
— É o que eu preciso, o fogo. O fogo e um pote.
Continuou a riscar figuras no chão. Curvada, um rosario de contas brancas e azues apparecia pelo cabeção aberto e batia-lhe nas pellancas dos peitos.
— Queria também um tacho. O outro furtaram.
Lembrei-me do tacho velho que era o centro da pequenina casa onde viviamos. Mexi-me em redor delle varios annos, lavei-o, tirei-lhe com areia e cinza as manchas de azinhavre — e delle recebi sustento. Margarida utilizou-o durante quasi toda a vida. Ou foi elle que a utilizou. Agora, decrepita, não podia ser doceira, e aquelle traste se tornava inteiramente desnecessario.
— Está bem, mãe Margarida, terá um tacho igual ao outro.
Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41.
