S. Bernardo (1934)/Capítulo V



V


— O senhor andou mal adquirindo a propriedade sem me consultar, gritou Mendonça do outro lado da cerca.

— Porque? O antigo proprietario não era maior?

— Sem duvida, respondeu Mendonça avançando as barbas brancas e o nariz curvo. Mas o senhor devia ter-se informado antes de comprar questão.

— Eu por mim não desejo questionar. Creio que nos entendemos.

— Depende do senhor. Os limites actuaes são provisorios, já sabe? É bom esclarecermos isto. Cada qual no que é seu. Não vale a pena concertar a cerca. Eu vou derrubal-a para acertarmos onde deve ficar.

Ponderei ao velho Mendonça que elle já tinha encolhido muito as terras de S. Bernardo. Pedi-lhe que mostrasse os seus papeis. Não sendo possivel accordo, era melhor vir o advogado e vir o agrimensor.

— Optimo! Arranjava-se com os tabelliães e mettia-me no bolso. Mas eu não vou nisso. Derruba-se a cerca.

Contei rapidamente os caboclos que iam com elle, contei os meus e asseverei que a cerca não se derrubava. Explicações, com bons modos, sim; gritos não.

E abrandei, meio arrependido, porque não me convinha uma briga com Mendonça, homem reimoso. O que eu não queria era baixar a crista logo no primeiro encontro.

Casimiro Lopes deu um passo; toquei-lhe no hombro e elle recuou. Mendonça comprehendeu a situação, passou a tratar-me com amabilidade excessiva. Paguei na mesma moeda, e como elle precisasse duns cedros que havia perto de Bom Successo, offereci-lhe os cedros. Recusou, propoz trocal-os por novilhas zebus. Declarei que não tencionava criar gado indiano, falei com enthusiasmo sobre o Limosino e o Schwitz. Mendonça desdenhava as raças finas, que comem demais e não aguentam o carrapato: engordava garrotes para açougue.

Insisti no offerecimento da madeira, e elle estremeceu. A nossa conversa era secca, em voz rapida, com sorrisos frios. Os caboclos estavam desconfiados. Eu tinha o coração aos baques e avaliava as consequencias daquella falsidade toda. Mendonça coçava a barba.

— Relativamente aos limites julgo que podemos resolver isso depois, com calma.

— Perfeitamente, concordou Mendonça.

Despedimo-nos. Continuei a estirar o arame farpado e a substituir os grampos velhos por outros novos. Mendonça, de longe, ainda se virou, sorrindo e pregando-me os olhos vermelhos.

Á tarde, quando voltei para casa, Casimiro Lopes acompanhou-me, carrancudo. Como eu não dissesse nada, tossiu, parou. Encostei-me a um limoeiro e espalhei idéas ruins que me perseguiam:

— Amanhã traga quatro homens, venha aterrar este charco. E limpe aqui o riacho para as aguas não entrarem na varzea.

— Só?

Pensei que, em vez de aterrar o charco, era melhor mandar chamar mestre Caetano para trabalhar na pedreira. Mas não dei contra-ordem, coisa prejudicial a um chefe.

— Só? tornou a perguntar Casimiro Lopes.

Apanhei o pensamento que lhe escorregava pelos cabellos emmaranhados, pela testa estreita, pelas maçãs enormes e pelos beiços grossos. Talvez elle tivesse razão. Era preciso mexer-me com prudencia, evitar as moitas, ter cuidado com os caminhos. E aquella casa esburacada, de paredes cahidas...

Decidi convidar mestre Caetano e cavouqueiros.

Diabo! Agitei a cabeça e afastei um plano mal esboçado.

— Por emquanto, só.

Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41.


Caso seja uma obra publicada pela primeira vez entre 1930 e 1977 certamente não estará em domínio público nos Estados Unidos da América.