S. Bernardo (1934)/Capítulo IX



IX


No outro dia, de volta do campo, encontrei no alpendre João Nogueira, Padilha e Azevedo Gondim elogiando umas pernas e uns peitos. Elevaram a conversa.

— Mulher educada, affirmou João Nogueira. Instruida.

— E sisuda, accrescentou Azevedo Gondim.

Padilha não achou qualidade que se comparasse aos peitos e ás pernas.

— Realmente, murmurou esgaravatando as unhas com um phosphoro.

João Nogueira lembrou-se de que era homem de responsabilidades. Bacharel, mais de quarenta annos, uma calvicie respeitavel. Ás vezes mettia-se em badernas. Mas com os clientes só negocios. E a mim, que lhe dava quatro contos e oitocentos por anno para ajudar-me com leis a melhorar S. Bernardo, exhibia idéas correctas e algum pedantismo. Eu tratava-o por doutor: não poderia tratal-o com familiaridade. Julgava-me superior a elle, embora possuindo menos sciencia e menos manha. Até certo ponto parecia-me que as habilidades delle mereciam desprezo. Mas eram uteis — e havia entre nós muita consideração.

— Acompanhámos o nosso Padilha, disse Nogueira. Viemos andando. Como o passeio era agradavel, com a fresca da tarde, cheguei cá, para consultal-o.

Convidei-o silenciosamente olhando uma janella por onde se viam, sobre livros de escripturação, as suissas brancas e os oculos de seu Ribeiro. Entrámos no escriptorio. Estavamos em principio de mez. Abri o cofre e entreguei ao advogado duas pelegas de duzentos. Seu Ribeiro tremeu no borrador um lançamento circumstanciado e afastou-se discretamente. João Nogueira sentou-se, passou o recibo, tirou papeis da pasta e explicou-me o estado de varios processos. Logo no primeiro convenci-me de que os quatrocentos mil reis tinham sido gastos com proveito. Os outros tambem iam em bom caminho. O tabellião é que não inspirava confiança. E o official de justiça. Arame.

— Claro. Faça promessas, dr. Nogueira. Não adiante um vintem. Prometta. O pagamento no fim, se elles forem honestos.

Inteirei-me de particularidades pouco interessantes, dei umas instrucções a seu Ribeiro e voltámos ao alpendre, onde Luiz Padilha tinha recomeçado com Azevedo Gondim os elogios ás pernas.

— De quem são as pernas?

— Da Magdalena, respondeu Gondim.

— Quem?

— Uma professora. Não conhece? Bonita.

— Educada, atalhou João Nogueira

— Bonita, disse outra vez Gondim. Uma lourinha, ahi duns trinta annos.

— Quantos? perguntou João Nogueira.

— Uns trinta, pouco mais ou menos.

— Vinte, se tanto.

— É porque você não viu de perto, interrompeu Gondim. Se tivesse visto, não sustentava semelhante barbaridade.

— Como não? Vi muito de perto, em casa do Magalhães, no anniversario da Marcella. Tem vinte.

— É porque você viu á noite. De manhã é differente. Tem trinta.

Padilha, observando com tristeza as novilhas que pastavam no capim gordura, á margem do riacho, e o açude, onde patos nadavam, suspirou e propoz vinte e cinco:

— É o que ella tem. Vinte e cinco.

Estirei os braços, fatigado de haver passado o dia inteiro ao sol, brigando com os trabalhadores:

— Muito bem, Padilha, vinte e cinco para acabar. Vocês jantam, não jantam? Voltam no automovel. Preciso falar com você, Padilha.

Luiz Padilha tinha recebido o recado e desde a vespera remexia o quengo, curioso.

— É isto. Creio que estou com vontade de abrir uma escola.

— Magnifico! exclamou Azevedo Gondim com um sorriso que lhe achatou mais o nariz. Acceitou o meu conselho, hein? Não ha nada como a instrucção.

O advogado passou os dedos pela testa e pressagiou, distrahido, que a escola teria grande utilidade.

Encolhi os hombros:

— Sei lá! Não acredito. Tanto que resolvi aproveitar o Padilha. Está claro que se poderia arranjar uma boa escola rural, com ensino razoavel de agricultura e pecuaria. Mas onde vou encontrar technicos? E que dinheirão! Por emquanto é apenas um bocado de leitura, escripta e conta. Você estará em condições de encarregar-se disso, Padilha?

Luiz Padilha informou-se do ordenado e declarou que vivia cheio de occupações.

Devagarinho, foram clareando as lampadas da illuminação electrica. Luzes tambem nas casas dos moradores. Se aquelles desgraçados que se apertavam lá em baixo, ao pé das cercas de Bom Successo, tinham nunca pensado em alumiar-se com electricidade! Luz até meia-noite. Conforto! E eu pretendia installar telephones.

Casimiro Lopes approximou-se, capengando. — Vamos jantar. Mandei chamal-o porque julguei que você necessitasse, Padilha. Desde que está occupado, ponto final. Vamos para a mesa.

Durante o jantar Azevedo Gondim referiu o motivo da sua visita: tinha-se descoberto o paradeiro da velha Margarida.

— Que está dizendo! E você calado, Gondim!

Azevedo Gondim encheu o copo:

— Mora em Jacaré dos Homens.

— Onde é isso?

— Em Pão de Assucar. Recebi hoje uma carta. Os signaes, a idade, a côr, tudo confere. Vive com uma família que faz queijos. Já retirei o annuncio do “Cruzeiro”.

— Está direito. Vocês conhecem alguem em Pão de Assucar? Conhece alguem em Pão de Assucar, seu Ribeiro?

Não conheciam.

— Oh, Gondim, já que tomou a empreitada, peça ao vigario que escreva ao padre Soares sobre a remessa da negra. Acho que acompanho vocês, vou falar a padre Silvestre. É conveniente que a mulher seja remettida com cuidado, para não se estragar na viagem. E quando ella chegar, pode encommendar as missangas, Gondim. Como se chamam?

— Clichés. Clichés e vinhetas.

— Pois sim. Mande buscar os clichés e as vinhetas, quando tivermos a velha.

— Estava aqui pensando na escola, murmurou Padilha.

— E eu. Tirou-me a palavra da boca, atalhou João Nogueira. Convide a Magdalena, seu Paulo Honorio. Excellente acquisição, mulher instruida.

— Até lhe enfeita a casa, seu Paulo, gritou Azevedo Gondim.

— Tolice. Ando lá procurando bibelots?

Padilha, meio desconcertado, rosnou, agarrando-se ao osso:

— Eu não disse que não acceitava. O que disse é que tenho muitas occupações. Mas perguntei qual é o ordenado.

Entretanto em desarticular uma aza de gallinha, não respondi.

— Perguntei qual é o ordenado, tornou Padilha timidamente.

Coitado! Tão miudo, tão chato, parecia um persevejo.

— Conforme. Nem sei quanto você vale. Uns cem mil reis por mez. Ponhamos cento e cincoenta a titulo de experiencia. Casa, mesa, boas conversas, cento e cincoenta mil reis por mez e oito horas de trabalho por dia. Convem? Mas aviso logo: serviço é serviço, e aqui ninguem bebe. Aqui só bebem os hospedes.

— Perfeitamente, mastigou Padilla encabulado. Vou reflectir. Quanto á bebida dispenso recommendação, que não bebo. Bebo nas refeições, nem sempre, e lá uma vez ou outra um calice, por insistencia de amigos. Talvez acceite.

Acabámos o jantar em silencio. Maria das Dores trouxe o café e retirou os pratos. Abri a caixa de charutos, accendi o cachimbo e fomos para o salão.

Seu Ribeiro desdobrou a “Gazeta”. Instinctivamente escondi-me num canto, afastado das portas abertas. Não consegui evitar uma janella. Quiz fechal-a, mas soceguei: Casimiro Lopes, que vigiava a casa, sentou-se numa das paredes começadas da igreja, accommodou o rifle entre as pernas e ficou immovel, farejando.

— Vai o nosso Padilha voltar a S. Bernardo, disse João Nogueira.

— E concluir o livro, accrescentou Azevedo Gondim. Você, com a vida regularizada, escreve á bessa, Padilha.

— Qual nada!

Envergonha-se de compor uns contozinhos que publica no “Cruzeiro”, com pseudonymo, e quando lhe falam nelles, imagina que é escolhambação e atrapalha-se. Aprumou-se, lançou um olhar amargurado ás cadeiras, ao soalho, ás lampadas:

— O ordenado é pequeno, não chega para os livros. Mas venho. Venho porque se trata de instrucção e tenho embocadura para o magisterio.

Seu Ribeiro virava a folha do jornal, movia os beiços, ás vezes gesticulava.

Indecente, aquella “Gazeta”. E o Brito, a pedir dinheiro, estava-se tornando insupportavel.

Azevedo Gondim, cançado por duas leguas a pé, bocejou e espreguiçou-se:

— Então os candidatos do Pereira são derrotados, hein?

Eleição municipal.

— Não interessa. Bico de penna!

Torcidas de verdade, sim: mandava os meus eleitores ás urnas e recebia em troca os agradecimentos do partido. Tricazinhas locaes, não. Se o Pereira tinha pisado em casca de banana, peor para elle: cahia, vinha outro e arranjava-se nova chapa.

— Bem feito, resmungou Padilha, que não perdoa ao Pereira ter desconfiado dos seus projectos de agricultura. Aquillo é um jumento.

— Que injustiça! bradou João Nogueira sorrindo. O Pereira até agora foi um sujeito de tino. Todo o mundo gabava a prudencia delle. Hoje o Padilha tacha-o de jumento.

— Homem, aventurou Azevedo Gondim coçando a barba, não é só o Padilha. Eu tambem. E você. Num momento como este dar murro em faca de ponta! Se tivessemos uma eleição federal de cabala, vá. Mas quando o governo não faz caso de votos, querer sacudir padre Silvestre na prefeitura! O Padilha tem razão.

— Ora essa atalhei. Você não sustentou a candidatura do vigario no jornal, Gondim?

— Sustentei. Sustentei por dever de solidariedade politica. Mas particularmente discordei. O Nogueira está ahi para attestar. E quanto a dizer que era disparate, era.

Sabia que padre Silvestre falara em cortar a subvenção de cento e cincoenta mil reis mensaes que o municipio dava ao "Cruzeiro” . Tinha esta ameaça atravessada na garganta. E, cheio de raiva, defendia o vigário, exaltando-lhe as virtudes e esquecendo o resto de proposito.

— Um desastre. Bom homem. É pouco. Muito ingênuo, emprenha pelos ouvidos, intelligencia de peru novo, besta como aruá.

— Padres! exclamou Luiz Padilha com desprezo.

Era atheu e transformista. Depois que eu o havia desembaraçado da fazenda, manifestava idéas sanguinarias e prégava, cochichando, o exterminio dos burguezes.

— Canalha!

E roeu as unhas com furor.

Seu Ribeiro, os oculos attentos, commentava em silencio, com gestos de desagrado, a prosa ruim do Brito.

— O que eu não comprehendo, extranhei, é a razão dessa rasteira no vigário. Estava quasi eleito, reconhecido, empossado, e de repente — zaz! — no chão. Porque foi?

— Padre Silvestre é revolucionário, explicou João Nogueira. Pretende salvar o paiz por processos violentos.

Estremeci. Casimiro Lopes, de binga na mão, accendia o cigarro. O luar estava muito branco. Um pedaço de mata apparecia, longe, e distinguiam-se as flores amarellas dos paus d’arco.

Levantei-me, fiz um signal a João Nogueira e approximámo-nos da janella.

— Oh dr. Nogueira, diga-me cá, perguntei em voz baixa, essa historia da queda do Pereira é certa?

João Nogueira acceitou um charuto e declarou que não havia duvida nenhuma.

— O governador estava razoavel e propoz um accordo mettendo o padre no conselho. O Pereira jogou no padre e levou taboca.

— Pois, dr. Nogueira, murmurei abafando mais a voz, cuido que chegou a occasião de liquidar os meus négocios com o Pereira. Tenho marombado, espiado maré, porque o chefe era elle. Mas se foi ao barro, acabou-se. Está aqui enrascado numa conta de cabellos brancos. Vou entregar-lhe a conta. Veja se me consegue uma hypotheca.

— Perfeitamente, concordou João Nogueira.

E enthusiasmou-se :

— Perfeitissimamente! Passe a procuração. O senhor vai prestar ao partido um grande serviço. Aperte o Pereira, seu Paulo Honorio.

Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41.


Caso seja uma obra publicada pela primeira vez entre 1931 e 1977 certamente não estará em domínio público nos Estados Unidos da América.