S. Bernardo (1934)/Capítulo III

III

Começo declarando que me chamo Paulo Honorio, peso oitenta e nove kilos e completei cincoenta annos pelo S. Pedro. A idade, o peso, as sobrancelhas cerradas e grisalhas, este rosto vermelho e cabelludo, têm-me rendido muita consideração. Quando me faltavam estas qualidades, a consideração era menor.

Para falar com franqueza, o numero de annos assim positivo e a data de S. Pedro são convencionaes: adopto-os porque estão no livro de assentamentos de baptizados da freguezia. Possuo a certidão, que menciona padrinhos, mas não menciona pae nem mãe. Provavelmente elles tinham motivo para não desejarem ser conhecidos. Não posso, portanto, festejar com exactidão o meu anniversario. Em todo o caso, se houver differença, não deve ser grande: mez a mais ou mez a menos. Isto não vale nada: acontecimentos importantes estão nas mesmas condições.

Sou, pois, o iniciador de uma familia, o que se por um lado me causa alguma decepção, por outro lado me livra da maçada de supportar parentes pobres, individuos que de ordinario escorregam com uma semvergonheza da peste na intimidade dos que vão trepando.

Se tentasse contar-lhes a minha meninice, precisava mentir. Julgo que rolei por ahi á toa. Lembro-me dum cego que me puxava as orelhas e da velha Margarida, que vendia doces. O cego desappareceu. A velha Margarida mora aqui em S. Bernardo, numa casinha limpa, e ninguem a incommoda. Custa-me dez mil reis por semana, quantia sufficiente para compensar o bocado que me deu. Tem um seculo, e qualquer dia destes compro-lhe mortalha e mando enterral-a perto do altar-mór da capella.

Até os dezoito annos gastei muita enxada ganhando cinco tostões por doze horas de serviço. Ahi pratiquei o meu primeiro acto digno de referencia. Numa sentinella, que acabou em furdunço, abrequei a Germana, cabritinha sarará damnadamente assanhada, e arrochei-lhe um belliscão retorcido na pôpa da bunda. Ella ficou-se mijando de gosto. Depois botou os quartos de banda e enxeriu-se com o João Fagundes, um que mudou o nome para furtar cavallos. O resultado foi eu arrumar uns cocorotes na Germana e esfaquear João Fagundes. Então o delegado de policia me prendeu, levei uma surra de cipó de boi, tomei cabacinho e estive de molho, pubo, tres annos, nove mezes e quinze dias na cadeia, onde aprendi leitura com o Joaquim sapateiro, que tinha uma biblia miuda, dos protestantes.

Joaquim sapateiro morreu. Germana arruinou. Quando me soltaram, ella estava na vida, de porta aberta, com doença do mundo.

Nesse tempo eu não pensava mais nella, pensava em ganhar dinheiro. Tirei o titulo de eleitor, e seu Pereira, agiota e chefe politico, emprestou-me cem mil reis a juro de cinco por cento ao mez. Paguei os cem mil reis e obtive duzentos com o juro reduzido para tres e meio por cento. D’ahi não baixou mais, e estudei arithmetica para não ser roubado alem da conveniencia.

De bicho na capação (falando com pouco ensino), esperneei nas unhas do Pereira, que me levou musculo e nervo, aquelle malvado. Depois vinguei-me: hypothecou-me a propriedade e tomei-lhe tudo, deixei-o de tanga. Mas isso foi muito mais tarde.

A principio o capital se desviava de mim, e persegui-o sem descanço, viajando pelo sertão, negociando com redes, gado, imagens, rosarios, miudezas, ganhando aqui, perdendo ali, marchando no fiado, assignando letras, realizando operações embrulhadissimas. Soffri sede e fome, dormi na areia dos rios seccos, briguei com gente que fala aos berros e effectuei transacções commerciaes de armas engatilhadas. Está um exemplo. O dr. Sampaio comprou-me uma boiada, e na hora da onça beber agua deu-me com o cotovello, ficou palitando os dentes. Andei, virei, mexi, procurei empenhos — e elle duro como beira de sino. Chorei as minhas desgraças: tinha obrigações em penca, aquillo não era trato, e tal, emfim, etc. O safado do velhaco, turuna, homem de facão grande no municipio delle, passou-me um esbregue. Não desanimei: escolhi uns rapazes em Cancalancó e quando o doutor ia para a fazenda, cahi-lhe em cima, de supetão. Amarrei-o, metti-me com elle na capoeira, estraguei-lhe os couros nos espinhos dos mandaracus, quipás, alastrados e rabos de raposa.

— Vamos ver quem tem roupa na mochila. Agora eu lhe mostro com quantos paus se faz uma canoa.

O doutor, que ensinou rato a furar almotolia, sacudiu-me a justiça e a religião.

— Que justiça! Não ha justiça nem ha religião. O que ha é que o senhor vai espichar aqui trinta contos e mais os juros de seis mezes. Ou paga ou eu mando sangral-o devagarinho.

Dr. Sampaio escreveu um bilhete á familia e entregou-me no mesmo dia trinta e seis contos e trezentos. Casimiro Lopes foi o portador. Passei o recibo, agradeci e despedi-me:

— Obrigado, Deus o accrescente. Sinto muito ter-lhe causado incommodo. Adeus. E não me venha com a sua justiça, porque se vier, eu viro cachorro doido e o senhor morre na faca cega.

Não tornei a apparecer por aquellas bandas. Se tornasse, era um tiro de pé de pau na certa, a cara esfolada para não ser reconhecido quando me encontrassem com os dentes de fóra, fazendo munganga ao sol, e a suppressão da minha fortuna, que eu conduzia dentro dum chocalho grande, arrolhado com folhas e pendurado no arção da sella. Ali estava em segurança: se o dinheiro e as folhas cahissem, o chocalho tocava.

Afinal, cançado daquella vida de cigano, voltei para a mata. Casimiro Lopes, que não bebia agua na ribeira do Navio, acompanhou-me. Gosto delle. É corajoso, laça, rasteja, tem faro de cão e fidelidade de cão.

Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41.


Caso seja uma obra publicada pela primeira vez entre 1931 e 1977 certamente não estará em domínio público nos Estados Unidos da América.