S. Bernardo (1934)/Capítulo I

I

Antes de iniciar este livro, imaginei construil-o pela divisão do trabalho.

Dirigi-me a alguns amigos, e quasi todos consentiram de boa vontade em contribuir para o desenvolvimento das letras nacionaes. Padre Silvestre ficaria com a parte moral e as citações latinas; João Nogueira acceitou a pontuação, a orthographia e a syntaxe; prometti ao Archimedes a composição typographica; para a composição literaria convidei Lucio Gomes de Azevedo Gondim, redactor e director do Cruzeiro. Eu traçaria o plano, introduziria na historia rudimentos de agricultura e pecuaria, faria as despesas e poria o meu nome na capa.

Estive uma semana bastante animado, em conferencias com os principaes collaboradores, e já via os volumes expostos, um milheiro vendido graças aos elogios que, agora com a morte do Costa Brito, eu metteria na esfomeada Gazeta, mediante lambugem. Mas o optimismo levou agua na fervura, comprehendi que não nos entendíamos.

João Nogueira queria o romance em lingua de Camões, com periodos formados de traz para diante. Calculem.

Padre Silvestre recebeu-me friamente. Depois da revolução de Outubro, tornou-se uma fera, exige devassas rigorosas e castigos para os que não usaram lenços vermelhos. Torceu-me a cara. E eramos amigos. Patriota. Está direito: cada qual tem as suas manias.

Afastei-o da combinação e concentrei as minhas esperanças em Lucio Gomes de Azevedo Gondim, periodista de boa indole e que escreve o que lhe mandam.

Trabalhámos alguns dias. Á tardinha Azevedo Gondim entregava a redacção ao Archimedes, trancava a gaveta onde guarda os nickeis e as pratas, tomava a bicycleta e, pedalando meia hora pela estrada de rodagem que ultimamente Casimiro Lopes andava a concertar com dois ou tres homens, alcançava S. Bernardo. Commentava os telegrammas dos jornaes, atacava o governo, bebia um copo de cognac que Maria das Dores lhe trazia e, sentindo-se necessário, commandava com submissão:

— Vamos a isso.

Iamos para o alpendre, mergulhavamos em cadeiras de vime e ageitavamos o enredo, fumando, olhando as novilhas Caracu que pastavam no prado, em baixo, e mais longe, á entrada da mata, o telhado vermelho da serraria.

A principio tudo correu bem, não houve entre nós nenhuma divergencia. A conversa era longa, mas cada um prestava attenção ás proprias palavras, sem ligar importancia ao que o outro dizia. Eu por mim, enthusiasmado com o assumpto, esquecia constantemente a natureza do Gondim e chegava a consideral-o uma especie de folha de papel destinada a receber as idéas confusas que me fervilhavam na cabeça.

O resultado foi um desastre. Quinze dias depois do nosso primeiro encontro, o redactor do Cruzeiro apresentou-me dois capitulos dactylographados, tão cheios de besteiras que me zanguei:

— Vá para o inferno, Gondim. Você acanalhou o troço. Está pernostico, está safado, está idiota. Ha lá ninguém que fale dessa fórma!

Azevedo Gondim apagou o sorriso, enguliu em secco, apanhou os cacos da sua pequenina vaidade e replicou amuado que um artista não pode escrever como fala.

— Não pode? perguntei com assombro. E porque?

Azevedo Gondim respondeu que não pode porque não pode.

— Foi assim que sempre se fez. A literatura é a literatura, seu Paulo. A gente discute, briga, trata de negocios naturalmente, mas arranjar palavras com tinta é outra coisa. Se eu fosse escrever como falo, ninguem me lia.

Levantei-me e encostei-me á balaustrada para ver de perto o touro Limosino que Marciano conduzia ao estabulo. Uma cigarra começou a chiar. A velha Margarida veio vindo pelo paredão do açude, curvada em duas. Na torre da igreja uma coruja piou. Estremeci, pensei em Magdalena. Em seguida enchi o cachimbo:

— É o diabo, Gondim. O mingau virou agua. Tres tentativas falhadas em um mez! Beba cognac, Gondim.

Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41.


Caso seja uma obra publicada pela primeira vez entre 1931 e 1977 certamente não estará em domínio público nos Estados Unidos da América.