Poesias posthumas do Dr. Aureliano José Lessa/Visão
Si virtus hoc una potest dare, omissis, fortis
Hoc age, deleti is.
Horacio Ep. 6ª
Ecce panis angelorum…
Poesia Religiosa
Logo que uma scentella do pensamento de Deus alvejou em meu espirito, eu me arrebanhei aos viajores do mundo:
E a fé tinha brotado em meu coração, e a coragem na minha fronte.
Era um esquadrão desemblantes, de muito sorrir nos labios: e eu exclamei: o que é sorrir?
Vi tambem muitos homens, de muito pranto nos olhos: e então exclamei:—o que é chorar?
Mas os homens só me responderam:— caminha!
E eu quiz caminhar; mas entorpecia-me os passos um turbilhão de moços, velhos, e creanças, que de contínuo abalroando-se, praguejavam, brigavam, cantavam, e soluçavam, estrangulando-se no meio de uma confusão infernal…
Elles rodavam em turmas por um sem conto de veredas baixas, elevadas, ou planas, escabrosas, ou frias, ou torradas.
— Onde estamos? — bradei. — Por onde correis?
— Na esperança! — Reboou um concêrto estrepitoso, dissono, e enthusiasta. E depois indigitaram-me as minhas fronteiras:
E eu descobri o futuro—áquem da felicidade—esvoaçando pela amplidão do horizonte immenso; e caminhei para lá…
Longo tempo estradei um dedalo de tramites cancellados em todas as direcções; e, quando mais proximo lobrigava o marco penultimo da romaria, galgava, sem saber como, as orlas do empório da esperança.
Então perguntei-lhes um por um o que era—a felicidade.
E eu escutei o infante, o velho, a mãi, a donzella, o amante, o soldado, a espôsa, o mercador, o sabio, o ignorante, o pai, o orphão, o padre, o rico, o pobre, o politico, o litterato, o cortezão, o rei, e o poeta:
Bem assim Platão, Erostrato, Epicuro, Democrito, Zenon, Heraclito, Confucio, Alexandre, Catão, Nero, Germanico, Iro, Créso, e as duas Lucrecias.
Eis o que me disseram:
— A felicidade é a mocidade, a força, a formosura, a glória, a sabedoria, a riqueza, o prazer sensual, a mesa, o jogo, a dança, a orgia, e a honra.—
— A felicidade é o brilho do ouro enterrado em ferreos caixões, a indolencia do corpo e do espirito, a glória militar, ou a tranquillidade doméstica, e familiar.—
— A felicidade é a vida do marinheiro, do sacerdote, da ave, da flôr, do rei, do idiota, do assassino, e do louco, o amôr, a contemplação, e a fé, a vida do probo, ou do atheu, e do hypocrita.
E quiz reflectir sôbre tanta contradicção, e harmonisal-as; mas a descrença enregelou-me as idéas, e gemi!…
O sôpro de um demonio enlutava-me a intelligencia, e o meu cerebro era como o pavilhão de cáhos…
Foi então que murmurei atturdido um conjurio horrivel…
Ai! a aurora de minha existencia, como a boreal, espancára as trévas de minha infancia, e o clarão tinha passado como a sombra do môcho sôbre um cadaver.
Ia invocar a omnipotencia do nada, quando…
— Olha! — disse-me um Grego, — e eu olhei…
Era um homem dentro de um tonel.
Alonguei os olhos pelo porvir, e vi patentes — os templos de Jano e Venus.
Alonguei-os pelo passado, e vi deslisando nas aguas do Nilo um recemnado. Vapor escuro rebuçava o tope do Sinai.
Rouquejou pelo correr do tempo muita ambição, correu muito sangue, adoraram-se muitos idolos.
Depois levantou-se de entre a multidão um tumulto espantoso, e aos ares um alarido horrivel e universal…
E o sentimento abandonou-me ao avistar a loucura total do genero humano,—porque o genero humano tinha enlouquecido.
Após esse transporte frenetico e brutal, meus olhos pairaram sôbre um cadaver pendente de uma cruz…
— Quem é aquelle? — bradei.
— A fé, a esperança, e a caridade,— respondeu-se-me
— E o que é a caridade, a esperança, e a fé?
— A felicidade.—
Então volvi-me para o futuro, e vi as nações prosternadas perante a cruz do Capitolio.
A paz reinava sôbre a terra.