Poesias posthumas do Dr. Aureliano José Lessa/Desengano (I)

 
DESENGANO


Vai-te, esperança,
Com teu sorriso;
Nelle diviso
Os laços teus.

Rompeu-se a venda
Que me illudia;
Eu não te via
Co’os olhos meus.

Tarde conheço
Que entre carinhos
Cravas espinhos
No coração.

Fui teu ludibrio:
Mas os teus laços,
Hoje em pedaços
Feitos estão.


Hoje a descrença
Meu peito habita;
Minha alma afflicta
Trévas trajou.

E o bem que eu via
No meu futuro,
N’um véo escuro
Se eclipsou.

Porvir sonhado,
Amôr celeste,
Nada me déste,
Nada, cruel!

Do amôr na taça
Traguei ancioso
Nas bordas—gôzo,
No fundo—fel.

Tu me trahiste,
O’ esperança!
Esta lembrança
Me matará.

Vai-te, falsaria,
Já não te creio;
Nem mais meu seio
Te acolherá!…