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vidas sêcas

Então porque um sem-vergonha desordeiro se arrelia, bota-se um cabra na cadeia, dá-se pancada nêle? Sabia perfeitamente que era assim, acostumara-se a tôdas as violências, a tôdas as injustiças. E aos conhecidos que dormiam no tronco e agüentavam cipó de boi oferecia consolações: — “Tenha paciência. Apanhar do govêrno não é desfeita”.

Mas agora rangia os dentes, soprava. Merecia castigo?

— An!

E, por mais que forcejasse, não se convencia de que o soldado amarelo fôsse govêrno. Govêrno, coisa distante e perfeita, não podia errar. O soldado amarelo estava ali perto, além da grade, era fraco e ruim, jogava na esteira com os matutos e provocava-os depois. O govêrno não devia consentir tão grande safadeza.

Afinal para que serviam os soldados amarelos? Deu um pontapé na parede, gritou enfurecido. Para que serviam os soldados amarelos? Os outros presos remexeram-se, o carcereiro chegou à grade, e Fabiano acalmou-se:

— Bem, bem. Não há nada não.

Havia muitas coisas. Êle não podia explicá-as, mas havia. Fôssem perguntar a seu

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