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vidas sêcas

rejasse e, debruçando-se no chão, bebeu muito. Saciado, caíu de papo para cima, olhando as estrêlas, que vinham nascendo. Uma, duas, três, quatro, havia muitas estrêlas, havia mais de cinco estrêlas no céu. O poente cobria-se de cirros — e uma alegria doida enchia o coração de Fabiano.

Pensou na família, sentiu fome. Caminhando, movia-se como uma coisa, para bem dizer não se diferençava muito da bolandeira de seu Tomás. Agora, deitado, apertava a barriga e batia os dentes. Que fim teria levado a bolandeira de seu Tomás?

Olhou o céu de novo. Os cirros acumulavam-se, a lua surgiu, grande e branca. Certamente ia chover.

Seu Tomás fugira também, com a sêca, a bolandeira estava parada. E êle, Fabiano, era como a bolandeira. Não sabia porquê, mas era. Uma, duas, três, havia mais de cinco estrêlas no céu. A lua estava cercada de um halo côr de leite. Ia chover. Bem. A catinga ressuscitaria, a semente do gado voltaria ao curral, êle, Fabiano, seria o vaqueiro daquela fazenda morta. Chocalhos de badalos de ossos animariam a solidão. Os meninos,

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