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GODOFREDO RANGEL

mesmos direitos que nós e que, com toda a sua arrogante presumpção, está á nossa mercê. Saboreamos-lhe o susto, que se lhe accende no olhar esgazeado, voltado para nós a supplicar misericordia. — Não terás quartel! — respondemos, cravando-lhe agudamente o olhar impiedoso, para augmentar o terror. E, como requinte da voluptuosidade da carnagem, brincamos primeiro com a presa inerme, alentando-a a espaços com uma falsa esperança. Simulamos descuido: pensa que pode fugir, tenta-o, mas reapoderamo-nos della. O terror accresce. E isto se repete indefinidamente. Sente, emfim, que tudo está acabado; e, exgottado pelo seu proprio excesso, o terror começa a esmorecer em desanimo, em conformidade... E, na sua passividade descorajada, nesse languecer de desalento, ha como o abandono voluptuoso de uma femea que se entrega...

Os velhos continuaram a sorrir. A՚ beira do copo, em cuja agua limpida uma flexa de ouro se abeberava, passeava a mosca confiadamente. Accendendo um cigarro, prosegui: