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tica, minha natureza perversamente refinada de homem culto, prosegui, balançando ligeiramente o copo, a cuja beira uma mosca pousara:
— Embora o neguemos, é-nos uma volupia o espectaculo do soffrimento. O sentimento da commiseração é um enxerto das moraes doentias e por isso como que nos demora apenas á flor da pelle. Pois o preceito principal da nossa moral indestructivel e primitiva é que cada um de nós é o eixo, o nucleo da humanidade, a sua razão de ser. Só existe o nosso soffrimento. Cada um de nós tem todos os direitos imaginaveis sobre as pessoas e cousas que nos cercam. Sabemos que a lucta é necessaria — pois desses fundamentos resulta um permanente e salutar estado de lucta. Luctamos para a solução do unico problema que nos interessa: o da nossa felicidade pessoal. E, se tudo foi creado para nosso gaudio, tambem o foi o soffrimento alheio, que não é a menor de nossas delicias. Que deleite extranho e sobrehumano o sentirmos — tigres travestidos de homens — a presa cobiçada impotente entre nossas garras! E՚ um ser vivo que pensa ter os