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— Porque está quieto, sr. Prospero? perguntei-lhe, para puxar palestra.
Pousou a vasilha e, voltando-se para mim, disse:
— Ando mais surdo estes dias, dr., e receio que minha prosa o incommode. Sei como é cacete conversar com surdos: é preciso gritar e ainda reter o riso, por causa dos disparates que se ouvem. No meu tempo eu tambem não gostava muito e só conversava por espirito de caridade. Por isso julgo os outros por mim...
Rematou sorrindo, como quem conta com um protesto certo e delicado. Protestei e perguntei-lhe se o incommodo não o fazia soffrer.
— A՚s vezes entristece-me um bocado. A gente, quando vae ensurdecendo, tambem vae ficando isolado. O som é um dos encantos da existencia, e, sentir-se elle esmorecer em torno de nós, é como sentirmos o afastar da vida. Com o som, os homens nos fogem, de sorte que vamos ficando trancados no silencio, como em nova especie de deserto. Mas emquanto eu tiver olhos pa-