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e conjuntamente, era para estremecer-lhe a fraca razão. Gostava das conversações scientificas, não admittindo que se perdesse tempo em prosas de nonáda; e, debatendo sua especialidade, sabia encantoar o interlocutor desprevenido em questões profundissimas, insondaveis, que explicavam a desusada proeminencia de suas bossas frontaes. Para isso tinha um geito especial, uma certa manha em concatenar perguntinhas capciosas, na apparencia inoffensivas, que insensivelmente iam guindando a gente ao pinaculo de altos problemas transcendentes. Estas questões constituiram o nobre emprego de sua vida. Na epocha em que todo o mundo se casa, elle esqueceu o matrimonio, todo embebido em resolver o problema do infinito do tempo e do espaço. Onde começa o mundo? Onde acaba? Seria o espaço o conteudo de uma immensa bola de vidro? E para alem desse vidro? Outras bolas? Quando começara o tempo? Se desde o principio até hoje decorrera o infinito, como poderiamos chegar até o hoje se de hoje ao fim ha o mesmo tempo infinito e nunca chegaremos ao fim? E com a attenção aguda applicada a estes altos