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GODOFREDO RANGEL

zes, a ares ou para caçar. Um tal Leonardo, comido de syphilis, permaneceu na fazenda mais de anno, em tratamento. Ao restabelecer-se, Prospero emprestou-lhe dinheiro para comprar um sitio. O pobre do Leonardo! se não tinha recursos para tocar a vida! Com esse principio arranjou-a tão bem, que hoje é homem de largas posses. E՚ verdade que os esqueceu e que, quando os cruza, mal bole no chapéo; mas anda tão atarefado, sua camaradagem é tão grande, que na cabeça, cheia de preoccupações, não sobra espaço para cortezias futeis. Negou-lhes uma vez auxilio — não por ingratidão, e sim porque o muito serviço põe a gente assim azaranzado e de mau humor, e a elle, coitado, serviço não faltava. O pobrezinho do Leonardo! Como a velha se lembrava ainda d՚elle quasi cego, babando pus, com a bocca cheia de tumores que mal o deixavam alimentar-se, tanto que era preciso descerem-lhe leite á garganta por um canudinho de bambu՚! E agarrava-se a siá Marciana, chamando-lhe mamãe, e chorando, num retrocesso á infancia, quasi imbecilizado pela molestia.