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GODOFREDO RANGEL

pescoço esticado para o ar, cacarejando afflictas, a regalar-se do farto manná que lhes cahia do céo sob a fórma de insecto.

Já do oriente, tangenciando a lombada da serra, e premido sob uma nuvem rosa e ouro, filtra-se o primeiro raio de sol. Pelas barrancas sombrias da estrada, em moitas de barba-de-bode, rebrilha aqui e alem obliquo fio alvissimo. Recrudesce a vozearia dos passaros, e asas multiplicam-se nos ares, aos trinços, aos chilros e casquinadas de crystal.

Mais abaixo mostra-se emfim uma curva do rio, harmoniosa e suave como uma linha humana. A՚ superficie liquida desfilam nevoaças, aos esquadrões, sopradas pela aragem matinal. Do lado da estrada as aguas espraiam-se claras sobre areaes; do outro lado, alto e ininterrupto paredão de verdura, exuberante, selvatico, como se a correnteza delimitasse as terras habitadas do sertão bruto. E d՚aquelle tapume enredado com que a natureza parece entrincheirar-se contra a invasão dos pequeninos civilizados, d՚aquella exube-