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A estrada
Atravesso um longo trecho do povoado, que ainda dorme na penumbra. A orla do horizonte empallidece. Cantos roucos de gallos erguem-se de todos os quintaes. Arvoredos somnolentos debruçam-se sobre velhas cercas, sombrios e relentados, com um fulgor de diamante negro em cada folha. A aragem corta e ligeira nevoa adensa-se nas extremidades da rua. Sorvendo até o imo dos pulmões o ar humido e frio, sinto meu sangue reagir alvoroçadamente, dando-me uma doce impressão de bem estar.
A estrada. Um resto da melancolia da noite ainda se exprime no cricrilar transnoitado dos ultimos grillos; em compensação, o hesitante rangido com que as primeiras cigarras ensaiam a musica do dia, o crescendo de pios e gorgeios na grande matta do outro lado do rio, annunciam o dia que alvorece.