Página:Vida Ociosa (2ª edição).pdf/28

Esta página foi revisada, mas ainda precisa ser validada
18
GODOFREDO RANGEL

prova a pequenez do mundo é que elle cabia de facto, e inteiro, no Minarete. Porque o resumo de toda a vida do universo está nas obras de arte, com alguma deformação, é certo, mas isso, a troco de maior belleza. A arte é infiel pela propria amplidão do quadro que reflecte. Assim uma bola de espelho, pendurada num terraço, mostra ao mesmo tempo o céo, o parque, o salão, ao lado, e a mesa, em baixo, com o vaso de flores e a cadeira de vime, em que a menina faz crochet: tudo muito bonito, e tudo muito inexacto.

Assim a arte: é imprecisa, porque vê tudo. A sciencia, porém, especializa-se para ser exacta. Mas não é agora occasião de se desenvolver a these. Faço-lhe este aceno só para explicar que o Minarete era um mundo, pelo menos em imagem, porque vivia em arte e pela arte. As obras de arte, alli, não eram só lidas ou escriptas; mas vividas, litteralmente. Lia-se muito, no cenaculo, e de tudo. Ricardo lia Rostand e Lecomte; Rangel lia Zola; todos liam Daudet, Zola, Flaubert, e outros, afora Eça de Queiroz, Camillo e os nossos. Mas liam vivendo; quereis ver?