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GODOFREDO RANGEL

emmudeceu, com o papel sujo estendido sobre a perna, á espera.

— Pois vá, vá perguntar a um advogado o que quizer. E olhe, tenho serviço, não posso attender ao sr. toda a vida.

Mau grado estas palavras asperas, meu consulente continuou encrustado na cadeira.

Recomecei meu passear agitado, buscando divertir o pensamento. Sobre a mesa vi, dobrado, o papel azul recebido de manhan. Um doce calor de jubilo filtrou-se-me no espirito. Senti-me feliz. Mas uns gordos autos de embargos, que avultavam logo adeante, esfriaram-me consideravelmente a alegria. Diabo! Tanto atrazo no serviço... Os prazos findos rabujavam em minha consciencia lenga-lengas interminaveis, atassalhando-me de remorsos.

Afastei essa vista importuna e voltei-me para o grammophone. Era uma velha machina, preciosa, que, de emprestimo em emprestimo, se desgovernara desoladoramente. Mas o ultimo emprestimo dera-lhe virtudes raras, muito de meu agrado. Mesmo sem dis-