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os rôlos de agua, despenhando-se. São os degraus em que a torrente rabeia, fustigando o leito, como serpente assanhada a encrespar a cauda nervosa. Muita gente: homens nus, ou com tanga, ou só de calças, munidos de toda a sorte de utensilios de pesca, ou outros objectos momentaneamente adaptados a esse uso — balaios ou coadores na ponta de bambús, guarda-chuvas, balaios sustidos nas mãos, peneiras, redes ondeantes como bandeiras, na extrema de varas longas.
A torrente despeja-se aos fluxos e refluxos. Quando a ondada passa, pulam os peixes em cada poço, innumeraveis, projectando-se para o ar, a despedir chispas de prata dos corpos retorsos nervosamente ennovelados e vibrateis. E aquelles apparelhos visam todos colhel-os no salto. Se recresce o rôlo liquido, aquieta-se o peixe um momento, esperando que passe, para, em cada socalco, entre o esfervecer dos borbolhões tumultuosos, recomeçar o seu projectar incessante, que o caipira compara a pipocas arrebentando. Abaixo da cachoeira, onde a caudal se rebalsa e retoma a majestade de seu curso len-