Página:Vida Ociosa (2ª edição).pdf/239
A cachoeira
Emquanto reino sobre meu sofá como unico e indisputavel senhor, a vida parece-me amavel; mas o velho peorou e o curandeiro que o trata veio arraigar-se a meu lado, refugindo do enfermo, cuja loquela interrogativa não se compadece com sua veia philosophante. Se meu vizinho fosse um ser inoffensivo, eu poderia toleral-o; mas o homem fala, fala, fala... Procuro, dispersar-me; numa fuga de attenção analyso-lhe a cabecinha ruiva de formiga e orço-lhe trigonometricamente a proeminencia do nariz pontuda; minha attenção, porêm, resvala para a perlenga ininterrupta e eis-me de novo a ouvil-o:
— E՚ como lhe digo — sou carimbamba por muito fuçador e querer saber cousas que não me competem. Sou peneireiro, fazedor de pilão, de colher de pau e de gamella, e devia ficar só nisso, porque é como lá diz: "Quem é