Página:Vida Ociosa (2ª edição).pdf/227

Esta página foi revisada, mas ainda precisa ser validada
VIDA OCIOSA
217

Bati e introduziram-me no quarto do velho. Sô Quim Capitão recostou-se na almofada para conversar. Estava escanifrado, de olhos fundos, muito nos cambitos, desenhando-se-lhe a ossatura accidentada sob a colcha de retalhos. Um bentinho unctuoso aninhava-se-lhe entre as falripas do peito descarnado e a cabelleira branca arrepellada dava-lhe ares de Jehovah em furia, a deitar maldicção.

Depois que me identificou e reconheceu, pediu noticias do povo do Corrego Fundo e da cidade. Quiz saber da guerra, da crise e abysmava-se de tudo, como se a fazenda fosse uma ilha deserta, e elle, Robinson. Detinha-se, ás vezes, num esgar de dor e contorcia-se no catre, onde seus ossos seccos estralejavam, como varas dum feixe mal atado. Depois, acalmado de subito, pedia desculpas da pausa, e recomeçava a "especulação". Fazia-me repetir as cousas duas, tres vezes e dar de tudo explicações miudas. Era um anseio de saber, de inquirir e um regalo das noticias sabidas, que por momentos esquecia os estortegões dos nervos gritadores,