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do seguia-lhe os movimentos; viu-a enxaguar o panno, assoprar as brasas arrefecidas, ageitar a chocolateira no borralho, depois sentar-se na taipa, á espera, sem desprender os olhos das brasas, que a fascinavam.
O pensamento de Lourenço esvoaçou frouxo, para a prisão. Revia o carcereiro, de sorriso amavel, bom homem. Envelhecera na faina e o mistér lhe não empedernira o coração. Longas prosas tiraram ambos, separados pelo engradado da porta. O tempo fizera-os amigos. O sr. Pedrosa, que assim se chamava, poupava-o na faxina e facilitava-lhe a venda de seus artigos de trançador, officio aprendido na cadeia — o que procurava o encarcerado compensar-lhe com a prestação de pequeninos adjutorios. E a cada momento reciprocavam-se desses miudos obsequios que, mesmo impalpaveis e infimos, firmam a amizade, sem a onerar com o compromisso de obrigações que captivam. Era o Pedrosa, por ter melhor cabeça, quem fazia o calculo do tempo a cumprir: "onze annos, dez mezes e cinco dias, Lourenço..." Uma folhinha animada, impaciente por não