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GODOFREDO RANGEL

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tangenciou o deserto polar de sua vida com uma promessa e presto se eclipsou esquivo. Se a sorte houvera sido outra! Se não lhe truncassem o encadeamento da vida! Porque a liberdade era uma porta longinqua, a tremeluzir baçamente no cerraceiro da velhice, como uma luzita hesitante na sombra vasta.

Volveram-se os tempos e elle sahiu. Eil-o trôpego, aturdido pelo ar livre e espaço desempeçado, buscando, em terras longes, o paradeiro da mulata. Porque o fizera? Ultimo anseio pela felicidade? Attracção? Monomania de pobre diabo um pouco virado do juizo? E o ar livre o opprimia, o mundo aberto e immenso dava-lhe vertigens. Talvez lhe passassem pela imaginação scenas de outr՚ora e, permixto, os sorrisos feiticeiros duns dezoito annos turgidos de seiva, boleados em tentações de carne, inspiradores da acre tonteira que o arrastara ao desvario e ao sangue. Velhas exhalações...

E trôpego, arrastando a perna, chega, afinal. O sol abrasa. Esbaforido pousa o bordão e a trouxa, limpa o suôr. Que canseiras de estradas longas!