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VIDA OCIOSA
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Fez-se o accordo tacito. A montada voltou a andar de quatro, com a clausula de me pôr eu o mais quieto possivel. Em compensação, buscou variar o mais possivel o cardapio. A՚s vezes abria um galope macio, dando-me ao corpo agradavel galeio; outras, servia-me o trote de má morte, lardeado de um horrivel picadinho sacudido; por fim cahiu num passo preguiçoso, melancholico, que parecia sentenciar:

— A vida é triste. Para que pressas, se ao cabo de tudo é sempre a morte? Uns trepam, outros são trepados, qual corre, qual anda mas no fim a dentuça da megéra abocanha a todos.

Aquella andadura dizia-me coisas. Eu edificava-me, traduzindo seu compasso significativo. Quando me senti saturado de philosophia cavallina, lancei vistas aos arredores. Campo, campo, campo... Monotonia exacerbante. A՚ margem da estrada, o mesmo hervecer tolhiço de joá-póca rajado, de gerbão de pendão negro e florinhas roxas, barbascos felpudos, manojos de carqueja. Cupins bojavam a flux, como a furunculose da terra. Nos espigões, a eterna crista de arbustos, debruando