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xuxú, andorinhas tontas a luctar com o vento...
— Traz a sanfona e toca, Americo — diz Prospero.
O instrumento, que o sanfonista pousa sobre os joelhos, absorve o ar num prolongado accorde. A՚quella hora, soltas as idéas, a musica penetra-nos como um balsamo. Seu rythmo, assim doce e rustico, é a unica linguagem compativel com o nosso estado de espirito. Soam velhas melopéas de mutirões, gemidos de escravos melancholizados em cantigas, toadas de extinctos serões que a sanfona já sabe de cór, antiga como o são ellas e que saem automaticamente dos dedos habituados do Americo. Seu timbre anachronico resurge cousas remotas, esfumadas no passado. Cerrados os olhos, os velhos se impregnam desse odor ancestral, como se aspira o rescender a alfazema de alfaias antiquissimas. De quantos annos a sanfona do Americo espairece os serões da fazenda, com a sua voz fanhosa! Cada musica prende a uma epocha, ou recorda um morto amado; antigas seroadas alegres, tempos de an-