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VIDA OCIOSA
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se solta, ao passo que as mãos instinctivamente se rentavam sobre as brasas veladas.

Fóra, uma harmoniosa serenidade baixara sobre a noite. Calara-se na matta o ulular mysterioso, voz lugubre de um sêr extranho, que turbava, com uma ameaça de drama, a quietude universal. A matinada das rans se ensurdecia, como se as ganhasse o torpor da noite. Em torno, o descampado, o deserto. Só, ilhados no ermo, como era doce o conforto daquelle abrigo, daquella rodinha de almas, banhados pelos dubios clarões da lamparina! Dava uma calidez de ninho ao corpo e á alma. Tambem a matta silenciosa, com a somnolencia de suas grandes frondes immoveis, parecia um carinhoso conchego de ramas sombrias. Alli embaixo, era só a paz, a calentura das tocas acolhedoras, a placidez dos ninhos, a segurança da vida. A natureza dormia e sonhava florações feéricas, fructescencias opímas; e o sonho dos brutos, adormecidos na paz, fluctuava brandamente sob as copas, como uma exhalação de bruma...