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VIDA OCIOSA
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para caçar, pois o luar tardará a banhar o barreiro emparedado pela grande matta, num profundo entreseio de serras. E, no estaleiro commodo, dispõem-se a fazer cama... Subito a attenção aviva-se-lhes. Ouvem um rumor longinquo, um vago crepitar que se torna cada vez mais nitido. Por fim é um vasto estrepito que se avizinha, tomando monte e valle, em convergencia para um só ponto — o barreiro. A՚ chegada, o rumor sinistro torna-se o formidavel estralejar das presas de um cento de queixadas. De mistura soam roncos, grunhidos, acachoado farfalhar de folhagens destroçadas. E o terreno apisoado pela horda invasora é foçado e furiosamente revolvido, arado pelo cento de focinhos, que ávidos se cevam na salobra infiltração do solo.

No entanto, os caçadores nada vêem. A treva homogenea, compacta, espessa como pixe, enche o ambito da clareira. A vida alli é apenas o confuso rumor da bandeira invasora — um grulhar multiplo e um amortecido estrincar de presas. Aquella vida mysteriosa no negror da noite, coa-lhes pelos nervos arrepios de pavor. Arriscar pas-