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VIDA OCIOSA
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paina macia e a alma dilatou-se satisfeita, predisposta a cahir na beatitude de um longo cochilo.

Tudo começou a tornar-se em calma e incomparavel mansuetude. Os escrupulos das obrigações atamancadas e esquecidas, a hostilidade das figuras que á desfilada me traziam pungitivo anseio, o vinco luminoso do meio-dia ensoado, as repisadas orbitas dos corvos lentos, foram-se vaporando e dissipando no doce diluimento com que se esmaecia e se apagava no azul a nuvemzinha branca que nesse momento meus olhos contemplavam; até o concerto infindavel das redes, em vez de nervosismo, trazia-me a tranquilla certeza dum dia doce e sem fim. Parava o tempo, o mundo immobilisava-se na ultima postura das mãos e no derradeiro soído de voz, como no castello da princeza adormecida, suspendia-se a vida numa ultima emoção, o rythmo do coração numa diástole final, tudo passava ao estado de irrealidade e de sonho...

Benigna sésta beatificadora! Não era bem dormir mas apenas entreviver, fazer na alma um grande vacuo,