Página:Vida Ociosa (2ª edição).pdf/139

Esta página foi revisada, mas ainda precisa ser validada
VIDA OCIOSA
129

Incoerciveis, os remorsos continuavam a pungir-me, com pontas aceradas.

Oh, esses maldictos autos! Ter que meditar duzentas folhas ensebadas e arrear a livraria, procurar o caso nos praxistas, quando os praxistas prevêem todos os casos, menos o que nos interessa! Ante a enormidade da tarefa os embargos lá ficavam dormindo sobre a mesa o somno dos prazos interminaveis...

Afogado sob tanta culpa, tive uma reacção de desespero. Não! eu não era um mau juiz. Em mim sentia a massa dos julgamentos imparciaes. Mas, diabo! a justiça, como nós a comprehendemos, esse tonto catar de artigos e retalhos de accordãos, era excessivamente implexa. Em mim não faltava boa vontade para o trabalho nem amor acendrado ao monumento das leis; respeitava-as, admirando-lhes o alto espirito philantropico. Respeitava os bons juizes e as sábias sentenças. O diario official, por exemplo, transcrevia sempre os julgados de um dos mais sabedores de nossos Papinianos, onde cada