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GODOFREDO RANGEL

da cidade. Evoquei a minha vida de homem civilizado...

O diabinho zombeteiro do tedio fez-me lembrar uma inquirição marcada para aquelle dia. Testemunhas de longe, crime sensacional, com advogados, accusador particular... Pulei da caixa. E eu que me havia esquecido! Maldicto azar!

Dias e dias que passo ás moscas em meu gabinete, sem uma petição, um auto a despachar, sem um depoimento, apenas a encabulação da visita do meirinho bexigoso, reverente e correcto, a perguntar-me inutilmente: "Sr. dr., tem alguma cousa para os cartorios?" — tão correcto que, ao chegarem as onze, já começo a enfezar: "Faltam cinco minutos... quatro, tres, dois...” e exaspero-me, apprehensivo, certo de que d՚ahi a um minuto bate delicadamente á porta e na curvatura respeitosa do costume me estribilha o quotidiano: "Sr. dr., tem alguma cousa..." — e espero que falte aquelle dia ao menos, que quebre aquelle habito de pontualidade acerbante, novo supplicio de Dâmocles — e passa o minuto, e ahi vêm as pancadas e a pergunta e a minha