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— Acredito que sintam essa falta... Nossa capacidade affectiva é tão grande, que ás vezes se estende a cousas minimas. Lembra-me o caso de uma formiga doceira, cujo desapparecimento muito me penalizou. Apparecia em certa hora da noite, á hora em que habitualmente escrevo. Surgia de um angulo da mesa, atravessava-a em diagonal, passando sobre o papel, e quebrava alem outra aresta, sumindo-se até o dia immediato. Foi assim muitas noites. Acostumei-me á formiguinha e, ao avizinhar-se a hora de seu apparecimento, tornava-me inquieto, expectante, fugiam-me as idéas, e nada mais podia fazer, até que surgisse, lépida, ligeira, alegrando o papel com seu passinho miudo, a minha querida amiguinha. A՚ sua passagem eu movia a penna em continencia, arredando-lhe a ponta da trajectoria conhecida. Era tão fragilzinha minha amiga! o mais leve de meus movimentos podia causar-lhe a morte. Nesses instantes eu interpellava-a: "Onde vaes tão apressada, minha diligente formiga? Parece que tens a cabecinha cheia de preoccupações. Detem-te um pouco, converse-