Página:Vida Ociosa (2ª edição).pdf/100
canto um fogareiro, para sentir acalentar-lhe a melancolica desillusão um pouco de borralho, a cuja beira passava as horas interminaveis a cuspir o sarro do tôco.
Um dia, não se sabe como, surgiu lá o primeiro hospede, homem dos seus quarenta. Foi um reboliço na casa. O sr. Almeida gaguejava e atarantava-se, e as nove musas, passadinhas ou não, ficaram num alvoroço de alleluias em tarde estiva, a trançar estonteadamente pela casa, numa boa vontade de servir e agradar, que era para pôr um homem rendido. O sr. Garcia (este o nome do hospede) não podia queixar-se de mau tratamento. Verdade que preferiria menos reboliço e vae-vem, pois, muito neurasthenico, fôra para calma dos nervos irritadiços que escolhera aquelle hotel desfrequentado. Só encontrava um pouco de bem estar no ambiente sedativo dos logares ermos, na convivencia comsigo mesmo em infindaveis meditações, em que o ondeante mover do pensamento parece fazer-se fóra do tempo e do espaço, e o espirito fluctua, frouxamente, como uma pe-