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Eis os meus ultimos cantos, o meu ultimo volume de poesias soltas, os ultimos harpejos de uma lyra, cujas cordas forão estalando, muitas aos balanços asperos da desventura, e outras, talvez a maior parte, com as dores de um espirito infermo, — ficticias, mas nem por isso menos agudas, — produzidas pela imaginação, como se a realidade já não fosse por si bastante penosa, ou que a espirito, affeito a certa dose de soffrimento, se sobresaltasse de sentir menos pezada a costumada carga.
No meio de rudes trabalhos, de occupações estereis, de cuidados pungentes, — inquieto do presente, incerto do futuro, derramando um olhar cheio de lagrimas e saudades sobre o meu passado — percorri este primeiro estadio da minha vida litteraria. Desejar e soffrer — eis toda a minha vida neste periodo; e estes desejos immensos, indisiveis, e nunca satisfeitos, — caprichosos como a imaginação, — vagos como o oceano, — e terriveis como a tempestade; — e estes soffrimentos de todos os dias, de todos os instantes, obscuros, implacaveis, renascentes, — ligados a minha existencia, reconcentrados em minha alma, devorados comigo, — umas vezes me deixarão sem força e sem coragem, e se reproduzirão em pallidos reflexos do que eu sentia, ou me forçarão a procurar um alivio, uma distracção no estudo, e a esquecer-me da realidade com as ficções do ideal.
Se as minhas pobres composições não forão inteiramente inuteis ao meu paiz; se algumas vezes tive o maior prazer