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um deboche de inimigo talvez, o documento que chegava á mesa da Camara, mas não aquelle recebimento hilarico, de uma hilaridade innocente, sem fundo algum, assim como se se estivesse a rir de uma palhaçada, de uma sorte de circo de cavallinhos ou de uma de uma careta de clown.

Os que riam, porém, não lhe sabiam a causa e só viam nelle um motivo para riso franco e sem maldade. A sessão daquelle dia fôra fria; e, por ser assim, as secções dos jornaes referentes á Camara, no dia seguinte, publicaram o seguinte requerimento e glosaram-no em todos os tons.

Era assim concebida a petição:

«Polycarpo Quaresma, cidadão brasileiro, funccionario publico, certo de que a lingua portugueza é emprestada ao Brasil; certo. tambem de que, por esse facto, o falar e o escrever em geral, sobretudo no campo das lettras, se vêm na humilhante contigencia de soffrer continuamente censuras asperas dos proprietarios da lingua; sabendo, além, que, dentro do nosso paiz, os autores e os escriptores, com especialidade os grammaticos, não se entendem no tocante á correcção grammatical, vendo-se, diariamente, surgir azedas polemicas entre os mais profundos estudiosos do nosso idioma — usando do direito que lhe confere a Constituição, vem pedir que o Congresso Nacional decrete o tupy-guarany, como lingua official e nacional do povo brasileiro.

O supplicante, deixando de parte os argumentos historicos que militam em favor de sua idéa, pede venia para lembrar que a lingua é o mais alta manifestação da intelligencia de um povo, é a sua creação mais viva e original; e, portanto, a emancipação politica do paiz requer como complemento e consequencia a sua emancipação idiomatica.