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lenço de cores vivas, um vidro de agua da Colonia, um espelho, bugigangas que denunciavam ainda nelles gostos bastante selvagens.
Passavam então uma semana em casa, a dormir ou á perambular pelas estradas e vendas; á noite, quasi sempre nos dias de festas e domingos, sahiam com a harmonica a tocar peças, no que eram eximios, sendo a presença delles muito requestada nos bailes da visinhança.
Embora seus pacs vivessem em casa de Quaresma, raramente lá appareciam; e, se o faziam, era porque de todo não tinham que comer. Levavam 0 descuido da vida, a imprevidencia, a ponto de não terem medo do recrutamento. Eram, entretanto, capazes de dedicação, de lealdade e bondade, mas o trabalho continuado, todo o dia, repugnava-lhes á natureza, como uma pena ou um castigo.
Essa atonia da nossa população, essa especie de desanimo doentio, de indifferença nirvanesca por tudo e todas as cousas, cercam de uma caligem de tristeza, desesperada a a nossa roça e tira-lhe o encanto, a poesia e o viço seductor de plena natureza.
Parece que nem um dos grandes paizes um dos grandes paizes opprimidos, a Polonia, a Irlanda, a India apresentará o aspecto cataleptico do nosso interior. Tudo ahi dorme, cochila, parece morto; naquelles ha revolta, ha fuga para o sonho: no nosso... Oh!... dorme-se...
A ausencia de Quaresma trouxera para o seu sitio essa atmosphera geral da roça. O «Socego» parecia dormir, dormir de encantamento, á espera que o principe o viesse despertar.
Machinas agricolas, que não haviam ainda servido, enferrujavam com a etiqueta da casa. Aquelles arados de ponta de aço, que tinham chegado com a relha reluzente, de um brilho azulado e doce, estavam hediondos e morriam de tedio no abandono em que jaziam, bracejando angustiosamente para o céo mudo. De manhã, não se ouvia mais o cacarejar das aves no gallinheiro, o esvoaçar dos pombos