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qual touro sahiu acima da agua depois de afogado; e affirmou que n’este mesmo lugar mataram seus vaqueiros outra cobra que tinha noventa e tres palmos, e pesava, mais do oito arrobas; e eu vi uma pelle de uma cobra d’estas que tinha quatro palmos de largo. Estas cobras tem as pelles cheias de escamas verdes, amarellas e azues, das quaes tiram logo uma arroba de banha da barriga, cuja carne os indios tem em muita estima, e os mamelucos, pela acharem muito saborosa.
Sucuriú é outra casta de cobras, que andam sempre na agua, e não sahem á terra; são mui grandes, tem as escamas pardas e brancas, das quaes matam os indios muitas de quarenta a cincoenta palmos de comprido. Estas engolem um porco d’agua, cuja carne os indios e alguns Portuguezes comem, e dizem ser muito gostosa.
Boiuna é outra casta de cobras, que se criam na agua, nos rios do sertão, as quaes são descompassadas de grandes e grossas, cheias de escamas pretas, e tem tamanha garganta que engolem um negro sem o tomarem, em tanto que quando o engolem ou alguma alimaria, se mettem na agua para o afogarem dentro, e não sahem da agua senão para remetterem a uma pessoa ou caça, que anda junto ao rio; e se com a pressa com que engolem a preza se embaraça e peja, com o que não póde tornar para a agua d’onde sahiu, morre em terra, e sahe-se a pessoa ou alimaria de dentro viva; e affirmam os linguas que houve indios, que estas cobras enguliram, que estando dentro da sua barriga tiveram acordo de as matar com a faca que levavam dependurada ao pescoço, como costumam.
Nos rios e lagôas se criam umas cobras, a que os indios chamam araboya; que são mui grandes, e tem o corpo verde e a cabeça preta, as quaes não sahem nunca á terra e mantem-se dos peixes e bichos, que tomam na agua, cuja carne os indios comem.
Ha outra casta de cobras que se criam nos rios, sem sahirem á terra, a que os indios chamam taraîboia, que são