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palmos de comprido, e d’aqui para baixo. Estas andam nos rios e alagôas, onde tomam muitos porcos d’agua, que comem; e dormem em terra, onde tomam muitos porcos, veados e outra muita caça, o que engolem sem mastigar, nem espedaçar; e não ha duvida senão que engolem uma anta inteira, e um indio; o que fazem porque não tem dentes, e entre os queixos lhe moem os ossos para o poderem engolir. E para matar uma anta ou um indio, ou outra qualquer caça, cingem-se com ella muito bem, e como tem segura a preza, buscam-lhe o sesso com a ponta do rabo, por onde o metem até que matam o que tem abarcado; e como tem morta a caça, moem-n’a entre os queixos para a poder melhor engolir. E como tem a anta, ou outra cousa grande que não póde digirir, empanturra de maneira que não podem andar. E como se sente pezada, lança-se ao sol como morta, até que lhe apodrece à barriga, e o que tem n’ella; do que dá o faro logo a uns passaros que se chamam urubús, e dão sobre ella, comendo-lhe a barriga com o que tem dentro, e tudo o mais, por estar podre; e não lhe deixam senão o espinhaço, que está pegado na cabeça e na ponta do rabo, e é muito duro; e como isto fica limpo da carne toda, vão-se os passaros; e torna-lhe a crescer a carne nova, até ficar a cobra em sua perfeição; e assim como lhe vai crescendo a carne, começa a bolir com o rabo, e torna a reviver, ficando como d’antes: o que se tem por verdade, por se ter tomado d’isto muitas informações dos indios e dos linguas que andam por entre elles no sertão, os quaes o affirmam assim.

E um Jorge Lopes, almoxarife da capifania de S. Vicente, grande lingua, e homem de verdade, affirmava que indo para uma aldeia do gentio no sertão, achára uma cobra d’estas, no caminho, que tinha liado tres indios para os matar, os quaes livrára d’este perigo ferindo a cobra com a espada por junto da cabeça e do rabo, com o que ficou sem força para os apertar, e que os largára; e que acabando de matar esta cobra, lhe achára dentro quatro porcos, a qual tinha mais de sessenta palmos de comprido; e junto do curral de Garcia de Avila, na Bahia, andavam duas cobras que lhe matavam e comiam as vaccas, o qual affirmou que adiante d’elle lhe sahira um dia uma, que remetteu a um touro, e que lh’o levou para dentro de uma lagoa a que acudiu um grande libréo, ao qual a cobra arremetteu e engoliu logo; e não pôde levar o touro para baixo pelo impedimento que lhe tinha feito o libréo; o