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em casa, onde fallam muito claro e bem, e tem muita graça no que dizam.
Ha outros passaros todos verdes, maiores que os tuins, que tem o bico branco voltado, toucado de amarello e azul, que criam em arvores, em ninhos, d’onde se tomam em novos, para se criarem em casa, aonde fallam tambem; estes andam em bandos destruindo as milharadas.
Na Bahia ao longo da agua salgada, nas ilhas que ella tem, se criam garcetas pequenas, a que os indios chamam carabuçú: algumas são branças e outras pardas, as quaes dão umas plumas cinzentas pequenas, muito fidalgas para gorro; todas criam ao longo do mar, onde tomam peixe, de que se mantem, e caranguejos novos; e esperam bem a espingarda.
Ha outros passaros, a que os indios chamam uirateonteon, que se criam perto do salgado, que são pardos, e tem o pescoço branco, o bico verde, e são tamanhos como adens, e tem os pés da sua feição. Estes passaros andam no mar perto da terra, e voam ao longo d’água tanto sem descançar, até que cahem como mortos; e assim descançam até que se tornam levantar, e voam.
Carapirá é uma ave, a que os mareantes chamam rabiforcado, os quaes se vão cincoenta e sessenta leguas ao mar, d’onde se recolhem para a Bahia, diante de algum navio do reino, ou do vento sul que lhe vem nas costas ventando, d’onde tornam logo fazer volta ao mar; mas criam em terra ao longo d’elle.
Jaború é outra ave tamanha como um grou, tem a cor cinzenta, as pernas compridas, o bico delgado e mais que de palmo de comprido; estas aves criam em terra ao longo do salgado, e comem o peixe que tomam no mar, perto da terra por onde andam.
Ao longo do salgado se criam uns passaros, a que os indios chamam urateon; são pardos, tamanhos como frangãos, tem as pernas vermelhas, o bico preto e comprido; são mui ligeiros, e andam sempre sobre a agua salgada, saltando em pulos, espreitando os peixinhos de que se mantem.