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mé de Sousa do seu conselho, e o elegeu para edificar esta nova cidade, de que o fez capitão, e governador geral de todo o Estado do Brasil: ao qual deu grande alçada e poderes em seu regimento, com que quebrou as doações aos capitães proprietarios por terem demasiada alçada, assim no crime como no civel; de que se elles aggravaram à S Alteza, que no caso os não proveu, entendendo convir a si a seu serviço. E como a dita armada esteve prestes, partiu Thomé de Sousa do porto de Lisboa aos 2 dias de Fevereiro de 1549 annos; e levando prospero vento chegou à Bahia de Todos os Santos, para onde levava sua derrota, aos vinte e nove dias de Março do dito anno, e desembarcou no porto de Villa Velha, povoação que Francisco Pereira edificou, onde pôz mil homens, convêm a saber: seiscentos soldados e quatrocentos degradados e alguns moradores casados, que comsigo levou, e outros criados d’El-Rei que iam providos de cargos, que pelo tempo em diante serviram.

capitulo ii
Em que se contem quem foi Thomé de Sousa e de suas qualidades.

Thomé de Sousa foi um fidalgo honrado, ainda que, bastardo, homem avisado, prudente e mui experimentado na guerra de Africa e da India, onde se mostrou mui valoroso cavalleiro em todos os encontros em que se achou; pelos quaes serviços e grande experiencia que tinha, mereceu fiar d’elle El-Rei tamanha empreza como esta que lhe encarregou, confiando de seus merecimentos e grandes qualidades que daria. a conta d’ella que se d’elle esperava; a quem deu por ajudadores ao Dr. Pedro Borges, para com elle servir de ouvidor geral, pôr o governo da justiça em ordem em todas as capitanias; e a Antonio Cardoso de Barros para tambem ordenar n’este Estado o tocante à Fazenda de S. Alteza, porque até então não havia ordem em uma cousa nem em outra, e cada um vivia ao som da sua vontade. O qual Thomé de Sousa tam-