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Foi meo primeiro canto um epicidio;
Minha alma baptizou-se em pranto amargo,
Na fragoa do sofrer purificou-se!
Lancei depois meos olhos sobre o mundo,
Cantos[errata 1] do sofrimento e da amargura;
E vi que a dôr aos homens circumdava,
Como em roda da terra o mar se estreita;
Que apenas desfructamos, — miserandos!
Desbotado prazer entre mil dôres,
— Uma roza entre espinhos aguçados,
Um ramo entre mil vagas combatido.
Voltou-se então p’ra Deos o meo espirito,
E a minha voz queixosa perguntou-lhe: —
— Senhor, porque do nada me tiraste,
Ou porque a tua voz omnipotente
Não fez secar da minha vida a seve
Quando eu era principio e feto apenas?
Outra voz respondeo-me dentro d’alma:
— Ardão teos dias como o feno, ― ou durem
Como o fogo de tocha resinosa,
— Como roza em jardim sejão brilhantes,
Ou baços como o cardo montesinho,
Não deixes de cantar, ó triste bardo. —
E as cordas da minha harpa — da primeira
Á extrema — da maior á mais pequena,
- ↑ Correcção: Cantos deve ler-se Cantor