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5Os meus, se nunca acabo de os lamber,
Como ussa os filhos mal proporcionados,
(Ah passatempos vãos! ah vãos cuidados!)
A quem posso porem nisso ofender?

Tudo cabe no tempo, entrego ao ano;
10Depois á perda, diga me esta gente:
Qual anda o furioso assi emendado?

Tomo ás cousas sagradas? que um profano
Leigo como eu tocá-las tam sômente
Não é de siso são, mas de abalado.


5 aos filhos. — 9 B entregue do dano. — 12 Deixo as cousas sagradas. — 13 como em tocá-las. — 14 mas abalado. — Veja-se o Soneto de Andrade Caminha ao qual este responde na Parte V. No. 189.


141.

Soneto XXXI.


Quando eu, senhora, em vos os olhos ponho
E vejo o que não vi nunca, nem cri
Que houvesse ca, recolhe se a alma a si
E vou tresvaliando como em sonho.

5Isto passado, quando me desponho
E me quero afirmar se foi assi,
Pasmado e duvidoso do que vi,
M’espanto ás vezes, outras m’avergonho.

Que, tornando ante vos, senhora, tal,
10Quando m’era mister tant’ outra ajuda,
De que me valerei se a alma não val?

Esperando por ela que me acuda,
(E não me acode, e está cuidando em al!)
Afronta o coração, a lingua é muda.


Texto: A f. 14 v. — Var.: B f. 4. — 3 B em si. — 4 E vai. — 8 me envergonho. — 10 Quando havia mister. — 13 acode, está.