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Num risonho quarto, côr do céo pintado,
Solitaria, borda linda costureira:
Suas mãos pequenas roçam no bordado,
Como as andorinhas tocam no arrufado
Lago, e vêm e voltam, d’agua á ribanceira!
Nunca tem nos labios desalento ou queixa,
E se chóra, cauta, as lagrymas estanca...
Seu pezar em breve ella esvaír-se deixa:
Borda, e quanto é bello ver-se-lhe a madeixa
Desatar-se negra sobre a renda branca!
Dentro desse quarto sempre ha primavera:
Flores na varanda de perfumes suaves,
Passaros cantando o que a saudade gera...
E é nesse scenario que a donzella espera
Seu amor, cercada de verbenas e aves.
Na parede, ao alto, está Nossa-Senhora,
Que na pobre moça um brando olhar descança:
Quer a noite venha, quer desponte a aurora,
No seu manto azul, sorri, consoladora,
Dando á desgraçada sonhos de esperança...
2.