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A JORNADA DE UM POETA
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Se lhe ferve no corpo, um sangue em febre, estuante
Nos estos do Verão! Se elle tem dentro d’Alma
Um merencoreo Hynverno, intérmino e sem sol!

O fogo arrebatou-lhe em seu furor insano
Os haveres, a vida, o affecto da familia,
Transformando-lhe tudo em cinza negra e pó!
Para sua ambição atroz e eterno engano! —
Em vez do Ouro almejado em tão longa vigilia:
Novas combinações, novos crystáes... e só!...

Tal como um lavrador, que vindo da colheita
As espigas conduz a longinquo celeiro
E pela estrada vae deixando o grão caír,
Grão que medra e floresce e fructos louros deita,
Elle traça, inconsciente, um fulgente roteiro
Que desvenda outra Estancia aos clarões do Porvir!

E como um sonhador, que percorrendo a escala
Das paixões e de todo o humano soffrimento
Com o proprio sangue escreve paginas de dôr,
E insensivel, um povo ou uma epocha assignala,
Elle chegou, sem o saber, ao fundamento
De uma sciencia ignorada, uma Idéa melhor.

E no sonho que o nutre e que o contrista,
No desejo que o alenta, abate e inflamma,
O pallido Alchimista
Exclama:

« — Terra, ostenta aos meus olhos o thesouro
« — Que no teu seio fúlgido palpita