Página:Poesias, 1900-1905.djvu/23
Aos mysterios da noite e aos rumores do dia
Indifferente, só, na lobrega mansarda,
O esqueletico talhe envolto num burel,
Pelo sonho que affaga, o Alchimista porfia,
Num anceio febril, sob a agourenta guarda
De um môcho, que lhe crava um olhar duro e cruel!
Amontoados em torno — escóreas e baguêtas,
Tubos em espiráes, cubas e almofarizes,
Retortas e crysóes, barras, laminas, sáes;
Um aberto alfarrabio ostenta as linhas prêtas
De hieroglyphos; além — cucurbitas, raizes,
E um brazeiro a luzir nos vidros e metáes!
As «Taboas de Esmeralda» e o «Tratado dos Sete
Capitulos» em vão consulta... Não descança!
E no fogo que ruge, elle mergulha o olhar
Que em volupia infernal a flamma azul reflecte!
Em seu rosto ora ri, ora morre a Esperança
Como a fagulha brilha e após se perde no ar!
Que lhe importa lá fóra a Primavera cante,
A agua brilhe, o astro fulja e se emballance a palma
E a rama verde vibre ouvindo um rouxinol?