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Véos neblinosos, longos véos de viuvas
Enclausuradas os feraes desterros,
Errando aos sóes, aos vendavaes e ás chuvas,
Sob abobadas lugubres de enterros;
Velhinhas quêdas e velhinhos quedos,
Cegas, cegos, velhinhas e velhinhos,
Sepulchros vivos de senis segredos,
Eternamente a caminhar sosinhos;
E na expressão de quem se vai sorrindo,
Com as mãos bem juntas e com os pés bem juntos
E um lenço preto o queixo comprimindo,
Passam todos os lividos defuntos...
E como que ha hystericos espasmos
Na mão que esses violões agita, largos...
E o som sombrio é feito de sarcasmos
E de somnambulismos e lethargos.
Phantasmas de galés de annos profundos
Na prisão cellular atormentados,
Sentindo nos violões os velhos mundos.
Da lembrança fiel de aureos passados;
Meigos perfis de tysicos dolentes
Que eu vi dentre os violões errar gemendo,
Prostituidos de outr’ora, nas serpentes
Dos vicios infernaes desfallecendo;