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Só elle sabe, o claro céo tranquillo
Dos grandes resplendores,
Qual é das almas o eternal sigillo,
Qual o cunho das dores.
Só elle sabe, o céo das quintessencias,
O Esquecimento ignóto
Que tudo envolve nas lethaes diluencias
De um occaso remóto...
O Esquecimento é flôr, subtil, celeste,
De pallidez risonha.
A alma das cousas languemente véste
De um véo, como quem sonha.
Tudo no esquecimento se adelgaça...
E nas zonas de tudo
Na candura de tudo, extremo, passa
Certo mysterio mudo.
Como que o coração fica cantando
Porque, tremulo, esquece,
Vivendo a vida de quem vae sonhando
E no sonho estreméce...
Como que o coração fica sorrindo
De um modo grave e triste,
Languidamente a meditar, sentindo
Que o esquecimento existe.
Sentindo que um encanto ethéreo e mago,
Mas um livido encanto
Põe nos semblantes um luar mais vago,
Enche tudo de pranto.