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PHARÓES
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Todas as altas céllas de ouro e prata
De teu claustro de Virgem sem affecto
Fecharam sobre tu’alma ti: norata
Austéras portas, com fragôr secreto.

No entanto havia no teu corpo ondeante
As delicias subtis de um céo fugace...
E éra talvez o encanto mais picante
A graça aldeã do teu nariz rapace.

Teus olhos tinham certa mágoa nobre
E certo fundo de doirado abysmo.
E a malicia que logo se descóbre
Em olhos de felino narcotismo.

Mas na bocca trazias todo o occulto
Tóque sombrio de ironia grave...
E como que as bellezas do teu vulto
Abriam azas peregrinas de ave.

Tinhas na bocca esse elixir ardente
Da volupia mortal dos gosos e éssa
Chamma de bocca, feita unicamente
Para no goso envelhecer depréssa.

E envelheceste tanto, muito cêdo,
Sumiu-se tão depressa o teu encanto,
Foi tão fallaz o seductor segredo
Do teu carnal e languido quebranto!