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ideias de canario
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tinha a seu cargo limpar a gaiola e pôr-lhe agua e comida. O passarinho não lhe dizia nada, como se soubesse que a esse homem faltava qualquer preparo scientifico. Tambem o serviço era o mais summario do mundo; o creado não era amador de passaros.

Um sabbado amanheci enfermo, a cabeça e a espinha doiam-me. 0 medico ordenou absoluto repouso; era excesso de estudo, não devia ler nem pensar, não devia saber sequer o que se passava na cidade e no mundo. Assim fiquei cinco dias; no sexto levantei-me, e só então soube que o canario, estando o creado a tratar d’elle, fugira da gaiola. O meu primeiro gesto foi para esganar o creado; a indignação suffocou-me, caí na cadeira, sem voz, tonto. O culpado defendeu-se, jurou que tivera cuidado, o passarinho é que fugira por astuto...

— Mas não o procuraram?

— Procuramos, sim, senhor; a principio trepou ao telhado, trepei tambem, elle fugiu, foi para uma arvore, depois escondeu-se não sei onde. Tenho indagado desde hontem, perguntei aos vizinhos, aos chacareiros, ninguem sabe nada.

Padeci muito; felizmente, a fadiga estava passada, e com algumas horas pude saír á varanda e ao jardim. Nem sombra de canario. Indaguei, corri, annunciei, e nada. Tinha ja recolhido as notas para compor a memoria, ainda que truncada e incompleta, quando me succedeu visitar um amigo, que

occupa uma das mais bellas e grandes chacaras dos

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