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a loja que o cerca. Fóra dahi, tudo é illusão e mentira.
Nisto acordou o velho, e veiu a mim arrastando os pés. Perguntou-me se queria comprar o canario. In}}daguei se o adquirira, como o resto dos objectos que vendia, e soube que sim, que o comprára a um barbeiro, acompanhado de uma collecção de navalhas.
— As navalhas estão em muito bom uso, concluiu elle.
— Quero só o canario.
Paguei-lhe o preço, mandei comprar uma gaiola vasta, circular, de madeira e arame, pintada de branca, e ordenei que a puzessem na varanda da minha casa, d’onde o passarinho podia ver o jardim, o repuxo e um pouco do ceu azul.
Era meu intuito fazer um longo estudo do phenoneno, sem dizer nada a ninguem, até poder assombrar o seculo com a minha extraordinaria descoberta. Comecei por alphabetar a lingua do canario, por estudar-lhe a estructura, as relações com a musica, os sentimentos estheticos do bicho, as suas ideias e eminiscencias. Feita essa analyse philologica e psyhologica, entrei propriamente na historia dos canarios, na origem delles, primeiros seculos, geologia e flora das ilhas Canarias, se elle tinha conhecimento da navegação, etc. Conversavamos longas horas, eu escrevendo as notas, elle esperando, saltando, trilando.
Não tendo mais familia que dous criados, ordenava-lhes que não me interrompessem, ainda por