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tanto melhor, porque é bonito, mas estou que confundes.
— Perdão, mas tu não vieste para aqui á toa sem ninguem, salvo se o teu dono foi sempre aquelle homem que alli está sentado.
— Que dono? Esse homem que ahi está é meu creado, dá-me agua e comida todos os dias, com tal regularidade que eu, se devesse pagar-lhe os serviços, não seria com pouco; mas os canarios não pagam creados. Em verdade, se o mundo é propriedade dos canarios, seria extravagante que elles pagassem o que está no mundo.
Pasmado das respostas, não sabia que mais admirar, se a linguagem, se as ideias. A linguagem, posto me entrasse pelo ouvido como de gente, saia do bicho em trillos engraçados. Olhei em volta de mim, para verificar se estava acordado; a rua era a mesma, a loja era a mesma loja escura, triste e humida. O canario, movendo a um lado e outro, esperava que eu lhe falasse. Perguntei-lhe então se tinha saudades do espaço azul e infinito...
— Mas caro homem, trillou o canario, que quer dizer espaço azul e infinito?
— Mas, perdão, que pensas deste mundo? Que cousa é o mundo?
— O mundo, redarguiu o canario com certo ar de professor, o mundo é uma loja de belchior, com uma pequena gaiola de taquara, quadrilonga, pendente de um prégo; o canario é senhor da gaiola que habita e